sábado, 29 de outubro de 2011

Por que a Bíblia é diferente de outros “livros sagrados”?

SEGUNDA-FEIRA, OUTUBRO 04, 2010


Hoje, muitos consideram a Bíblia apenas como o melhor livro produzido pelo cristianismo. Essas pessoas não a consideram melhor do que os livros que contêm os ensinamentos de Buda, o Bhagavad Ghita dos hindus ou qualquer outra obra religiosa. Por que os cristãos insistem que a Bíblia é um livro diferente? Em meio a tantas opiniões divergentes, é necessário examinar a origem do livro que serve de fundamento para o cristianismo. Os profetas bíblicos afirmavam possuir um conhecimento real sobre o Deus infinito. Eles estavam absolutamente certos de que Deus falava por meio deles. Os profetas diziam que Deus faz afirmações dignas de confiança. Ele é capaz de predizer o futuro, e é isso que O torna diferente dos falsos “deuses”: “Eu sou o Senhor; este é o Meu nome! Não darei a outro a Minha glória nem a imagens o Meu louvor. Vejam! As profecias antigas aconteceram, e novas Eu anuncio; antes de surgirem, Eu as declaro a vocês” (Is 42:8, 9).

Um Deus que Se comunica – Os autores bíblicos estavam seguros de que Deus pode Se comunicar e de fato Se comunica com os seres humanos. Para eles, a linguagem não é nenhum tipo de barreira que impede a comunicação direta entre Deus e os seres humanos. Deus não é limitado; Ele tem a capacidade de usar a linguagem humana. Muitas vezes, Deus é mencionado como a Pessoa que realmente está falando por meio dos profetas. Por exemplo, as palavras de Elias (1Rs 21:19) são descritas como “a advertência que o Senhor proferiu” (2Rs 9:25), enquanto que Elias sequer é mencionado.

De acordo com a Bíblia, a mensagem de um profeta é equivalente à fala direta de Deus. Portanto, desobedecer a um profeta é desobedecer a Deus: “Se alguém não ouvir as Minhas palavras, que o profeta falará em Meu nome, Eu mesmo lhe pedirei contas” (Dt 18:19). Quando o rei Saul desobedeceu à mensagem de Deus dada por meio do profeta Samuel, foi-lhe dito: “Você agiu como tolo, desobedecendo ao mandamento que o Senhor, o seu Deus, lhe deu; se você tivesse obedecido, Ele teria estabelecido para sempre o seu reinado sobre Israel. Mas agora o seu reinado não permanecerá; o Senhor procurou um homem segundo o Seu coração e o designou líder de Seu povo, pois você não obedeceu ao mandamento do Senhor” (1Sm 13:13, 14).

A Bíblia registra muitos episódios em que Deus fala diretamente com os seres humanos: conversas com Adão e Eva depois de pecarem (Gn 3:9-19); o chamado de Abraão (Gn 12:1-3); o diálogo com Elias no monte Horebe (1Rs 19:9-18). Todo o código de leis dadas no Pentateuco (Êx–Nm) é formado por palavras proferidas diretamente por Deus (Lv 1:1; Nm 1:1).

Os profetas do Antigo Testamento foram enviados por Deus para falar Suas palavras. Essa autoridade é demonstrada pela frequente expressão “Assim diz o Senhor”. De fato, o que distingue um profeta verdadeiro de um falso é que o primeiro não fala suas próprias palavras. Deus disse a Moisés: “Agora, pois, vá; Eu estarei com você, ensinando-lhe o que dizer” (Êx 4:12). Ele disse também a Jeremias: “Agora ponho em sua boca as Minhas palavras” (Jr 1:9).

A Bíblia mostra claramente que os profetas tinham muito mais do que um “encontro” com Deus que lhes dava uma sensação agradável. Deus transmitiu aos seres humanos informações concretas (Dt 29:29).

Um livro único – O Antigo e o Novo Testamentos falam inúmeras vezes que a verdade de Deus não é algo obtido por seres humanos depois de buscarem diligentemente pelo “Divino”. A verdade vem exclusivamente pela iniciativa de Deus. Deus fala por meio do profeta. E a linguagem humana é capaz de transmitir a comunicação divina.

Os apóstolos do Novo Testamento falam com a mesma autoridade que os profetas do Antigo Testamento. Eles falam pelo Espírito Santo (1Pe 1:10-12), que lhes transmitiu o conteúdo de sua mensagem (1Co 2:12, 13). Os ensinos dos apóstolos são bastante “diretivos”, transmitindo mandamentos com toda a autoridade (1Ts 4:1, 2; 2Ts 3:6, 12).

Entretanto, a Bíblia como um todo não foi ditada por Deus palavra por palavra. O mensageiro humano foi guiado por Deus ao selecionar as palavras adequadas para expressar a revelação. Dessa maneira, as palavras do profeta são chamadas de Palavra de Deus. É evidente a individualidade e personalidade de cada escritor, mas os elementos divino e humano são inseparáveis.

Ao longo da História, os estudiosos cristãos têm comparado a Bíblia com a natureza divino-humana de Cristo: “A Escritura Sagrada, com suas divinas verdades, expressas em linguagem de homens, apresenta uma união do divino com o humano. União semelhante existiu na natureza de Cristo, que era o Filho de Deus e Filho do homem. Assim, é verdade com relação à Escritura, como o foi em relação a Cristo, que ‘o Verbo Se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1:14).”[1]

A leitura da Bíblia mostra que existe continuidade e unidade entre o Antigo e o Novo Testamentos. Os escritores do Novo Testamento fazem centenas de citações do Antigo. Isso mostra que os apóstolos e os primeiros cristãos consideravam o Antigo Testamento como uma revelação vinda de Deus. As palavras de Isaías 7:14 são citadas como “o que o Senhor dissera pelo profeta” (Mt 1:22). Jesus cita Gênesis 2:24 como palavras ditas por Deus (Mt 19:5).

As palavras das Escrituras são mencionadas como faladas pelo Espírito Santo. Ao citar o profeta Joel, Pedro afirma: “Diz Deus” (At 2:17). Paulo e Barnabé citam Isaías 49:6 como algo que “o Senhor nos ordenou” (At 13:47). Isso mostra claramente que o Antigo Testamento contém instruções válidas para os cristãos.

Os escritores do Novo Testamento também sabiam que Deus é capaz de falar diretamente às pessoas em linguagem humana. Isso fica claro, por exemplo, no batismo de Jesus (Mt 3:17); na transfiguração de Cristo (Mt 17:5; 2Pe 1:17, 18); nas instruções dadas a Ananias (At 9:11-16); e na revelação a João (Ap 1:11–3:22).

Um livro confiável – O próprio Jesus Cristo confirmou que o Antigo Testamento era o fundamento de Seus ensinos e ética. As profecias do Antigo Testamento eram o padrão para Sua vida, como Ele disse muitas vezes: “As Escrituras precisam ser cumpridas” (Mc 14:49); “Como [...] está escrito” (Mt 26:24). Ele repreendeu aos teólogos de Sua época por permitirem que ensinos humanos distorcessem e mesmo anulassem o Antigo Testamento, a Palavra de Deus que existia na época (Mc 7:7, 13).

Jesus esperava que as pessoas aceitassem a autoridade do Antigo Testamento. Ele costumava perguntar: “Vocês não leram?” (Mt 12:5; 21:16; Mc 12:10). Em resposta à pergunta feita pelo mestre da lei sobre a salvação, Jesus disse: “O que está escrito na Lei?” (Lc 10:26).

O apóstolo Paulo também se refere à autoridade do Antigo Testamento. Na carta aos Romanos, ele constroi uma poderosa argumentação em favor do evangelho com base no Antigo Testamento (Rm 1–11).

Além disso, Jesus e os escritores do Novo Testamento aceitavam que todo o Antigo Testamento apresenta histórias verídicas e confiáveis, inclusive as histórias de Adão e Eva, bem como Noé e o Dilúvio (Mt 19:4, 5; Lc 21:26-29; 2Pe 3:3-7). Para eles, o fato de que Deus atuou no passado mostra a certeza de que Ele atuará no futuro.

Muitos dos autores bíblicos, assim como Cristo, mostram que é possível utilizar a Bíblia de maneira equivocada ou interpretá-la mal. Felizmente, Jesus apresenta uma chave que deve nos guiar quando estudamos a Bíblia: “As Escrituras [...] testemunham a Meu respeito” (Jo 5:39). Paulo diz que, quando alguém vê Jesus através das Escrituras, um “véu” é retirado dos olhos (2Co 3:14-16). Os dois discípulos que viajavam para Emaús tiveram a fé confirmada quando Cristo lhes deu a interpretação correta do Antigo Testamento (Lc 24:32).

Hoje, muitos dizem que várias partes da Bíblia são questionáveis. Creio que a seguinte advertência é relevante para todos os cristãos: “Que jamais algum ser humano julgue a Palavra de Deus ou a critique sobre quanto dela é inspirado ou quanto não é inspirado, nem diga que determinada passagem é mais inspirada que outra. Deus adverte que não sigamos por esse caminho. Deus não deu a nenhum ser humano a tarefa de decidir o que é inspirado e o que não é.”[2]

O próprio Deus expressa a mesma ideia: “A este Eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da Minha palavra” (Is 66:2). Ao longo de toda a Bíblia, encontramos um Deus que procura Seus filhos, que deseja intensamente comunicar-Se com eles e que os ama mais do que ama Sua própria vida.

(Jo Ann Davidson, Ph.D, é professora de Teologia na Andrews University, Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos. Publicado originalmente como “The Word Made Flesh”, Perspective Digest, ano 15, nº 3 [2010], p. 21-25. Traduzido e adaptado por Matheus Cardoso. Usado com permissão.)

Todas as citações bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional.

Referências:

[1] Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. vi.

[2] Idem, em SDA Bible Commentary (Washington, DC: Review and Herald, 1957), v. 7, p. 919.

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